"O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que lamentam, muito curto para os que festejam.
Mas, para os que amam, o tempo é eternidade...
(William Shakespeare)

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Segunda-feira, Novembro 29, 2004


Desde os 12 anos tento aprender a lidar com o que há de mais difícil no mundo: a perda.
Digo desde os 12, mas talvez tenha sido desde os 13, ou mesmo desde os 15, não sei.
O fato é que faz tempo já. Faz tempo que perco coisas e não sei lidar com elas...
Sempre perdi nos esportes, por isso não os praticava. Minhas maiores faltas sempre foram nas temidas aulas de educação física. Também estou muito acostumada a perder coisas, por isso não me apego a elas. Nada do que é material me importa. Perco fivelas, brincos, roubaram meu carro e a perda não me fez derramar uma lágrima sequer. Tomei um susto, fiquei chocada, mas liguei pro seguro, fiz o b.o e pronto.
Meu radio, levaram duas vezes. Só da segunda chorei. E não foi pelo rádio, foi porque o carro estava na frente da minha casa, e eu confiava nesse lugar. A possibilidade de perder a confiança nas pessoas, essa sim, é doída.
Preciso aprender a lidar com a perda, porque a vida é feita de muitas delas. Se eu não aprender, vou precisar morrer muito cedo, já que envelhecer, só é possível aos que conseguem conceber a idéia de perdas. Ganhos também, mas perdas, principalmente.
Assisto meus pais perderem todos os dias. Morro um pouco, cada vez que minha mãe conta uma história pela segunda vez. Tem acontecido muito ultimamente. Meu coração se destrói a cada pequena demonstração cotidiana da perda que eles vivem. Servir o refrigerante de dois litros se tornou pesado, amarrar um tênis leva muito tempo, entrar em um assunto já não é mais tão simples... Eles perdem coisas, todos os dias, a cada minuto.
E eu, aqui no meu cantinho, não consigo lidar com perdas que deveriam ser infinitamente mais ridículas.
Eu posso não querer estar com determinada pessoa, não achá-la mais atraente, interessante, divertida. Saber que foi uma história inventada da minha cabeça fantasiosa, que ele real é um gorducho, machista, emburrado... Eu posso ter toda a consciência do mundo, e ainda assim sentir uma dor desgraçada me rasgando o peito cada vez que me vejo perdendo o babaca.
Talvez porque a perda esteja tão debaixo do meu nariz. Toda vez que pego um papel na impressora, toda vez que preciso de um xerox, ou toda vez que vou ao banheiro, lá está ela. Me olhando com ares de vitória, me esnobando o cabelo liso e comprido, me esfregando na cara a felicidade que eu conheci, e assim ela me mostra as minhas misérias, as minhas faltas, as minhas mesquinharias, a minha inveja, os erros que me fizeram perder. Ainda que ele seja um idiota. Cada vez que eu os vejo trocar um olhar, cada vez que percebo o sorriso engolido nos lábios sérios, cada vez que noto uma palavra de afeto, um e-mail carinhoso, a voz baixa no telefone, os cuidados que me fizeram viver, morro um pouco.
Porque é tão difícil perder? Porque se não me importo? Porque quero morrer por não tê-lo se não quero tê-lo? Porque, se ele está tão gordo que tem dobrinhas na nuca? Porque se ele nem é legal e nunca compartilhou dos meus sonhos, das minhas dores, dos meus medos? Porque se ele nunca entendeu nada mesmo? Porque dói a perda de algo que, na realidade, não me faz falta?
Porque me sinto mutilada, se o que levaram, era peso?
E porque diabos eles são tão felizes? Porque ela consegue mantê-lo por perto?
Porque sinto tantas saudades? Porque as dobrinhas na nuca não fazem diferença se são tantas afinal?


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Ana às 12:38 Comente!



Quarta-feira, Novembro 24, 2004


Então¿
Eu tenho regredido. Voltado à infância, à adolescência, buscado recolher cacos de mim que ficaram espalhados pelo tempo.
Coincidência ou não, me vi em uma loja de brinquedos dia desses. Queria achar um jogo da minha infância... Chamava-se Cara a cara.
Eu passei dias tentando lembrar dos nomes das pessoas do tabuleiro, e fui até uma loja pedir ajuda. Acabei por comprar o jogo, meio envergonhada, por ser adulta e não me reconhecer grande...
O jogo está diferente do que mora na minha memória. Eu quis achar o antigo. Investigando com os amigos, acabamos falando dos armários de criança, dos quartos de bagunça onde mantemos espremidos os brinquedos que gostávamos mais. Todo mundo tinha o tal quartinho.
Você também tem? Um quarto de bagunça, um lugar meio escuro, empoeirado onde guarda coisas que nem lembrava mais e que lhe foram tão caras?
Tenho remexido nos meus...
Aliás, nem sabia que tinha tanta coisa entulhada dentro de mim. Nem sabia que poderia machucar tanto.
Tantos assuntos que eu achei que estavam mortos. E que não machucariam mais, que não trariam lágrimas. Mas foi como se eu abrisse o quarto escuro e começasse a espirrar. Foi como se eu vivesse de novo aquele tempo que não deveria voltar.
E quis resgatar um sentimento que não mais existe. Tive vontade de gritar: ¿Ei eu senti amor, eu senti alegria, cadê, cadê, tragam de volta, roubaram tudo, tragam, tragam, o passado está aqui, tragam o que me era de direito nessa cena!!¿ mas não trariam....
Mais uma prova de que o sentimento não está nas coisas, mas em nós. Ela disse isso uma vez.
O que dói não é a perda da pessoa. É do que ela nos capacitava a sentir. A pessoa, em si, não faz nada. Não é grande. Nós é quem somos, nossa capacidade de criarmos sensações tão doces, tão ternas, tão frágeis, talvez por serem tão belas...
Deveríamos, ao invés de chorar o passado, nos orgulharmos dele. De nós mesmas que somos tão cheias de beleza no nosso sentimento. Se alguém renegou o que você tinha de mais precioso, não importa. Você ainda tem. A preciosidade é tua, mora aí, e sempre devíamos deixá-la crescer. Nós é que cortamos os fios que nos faz bombear o coração.
Mas nào. Nós fechamos nosso quarto escuros, junto com o brilho que ele nos dera. Nós nos matamos, tornamos a vida opaca, porque quanto menos tinta, menos escorregamos.
Criamos muros, erguemos grandes paredes contra a doçura, porque ¿ai ¿a doçura nos mata quando falta....
Só as crianças que acreditam mesmo. De forma inabalável, elas acreditam. Na vida, na família, em nós, adultos tolos que não acreditamos nelas e nem em ninguém.
As crianças são sempre heróis.
Não consegui achar o Cara a cara antigo. Não existe mais...


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Ana às 12:43 Comente!



Terça-feira, Novembro 02, 2004


Fui assistir a um romancinho.
Sempre juro que nunca mais vou.
Porque passo semanas me esforçando pra ser dura, pra ser firme, fria, rude até...Passo séculos me esforçando pra ser uma descrente do amor, porque as coisas se tornariam muito mais fáceis, até que vou assistir ¿Wimbledon ¿ O jogo do amor¿...
Saí de lá jurando não ver mais esses filmes. Porque saí de lá na dúvida... Será? Será que pode existir? Ele não precisa ser um jogador de tênis. Ele não precisa ser o número 1.
Não... Eu nunca quis um mega star, eu nunca quis os grandes vencedores...
Eu e os velhos sonhos pequenos. Quero ter o que comemorar, além das coisas antigas... Quero ter porque me levantar afinal, todos os dias...Quero ter vontade de comprar roupa nova, quero um olhar de encantamento, um suspiro, uma respiração suspensa, uma cena de filme... É eu quero a cena de filme.
Mas é só porque eu tô na TPM....
Antigamente, me diziam que eu era sonhadora demais. Boba, cabeça nas nuvens, enfim... Hoje, quando eu digo que não acredito me julgam dura: ¿Não seja assim tão descrente¿ minhas amigas dizem ainda com o brilho de adolescente nos olhos... Mas não existe! Eu respondo aos berros sem dizer nada... Não existe...
Se existisse já teria vindo aqui, me dar um oi. Se existisse teria tocado a campainha naquela noite de frio, se existisse teria pregado esse maldito quadro que eu não consigo pregar sozinha...
Se existisse teria me feito um chá aquela noite que eu morria de gripe. Se existisse eu não teria que ter parado aquele filme, porque estava muito assustador pra uma medrosa solitária. Se existisse eu não seria solitária. Talvez nem medrosa... Se existisse ligaria à noite, e teria passado pelo menos um domingo comigo. Pelo menos um, unzinho só.... Se existisse teria mandado flores, não, não muitas, nem caras... Se existisse teria meia-dúzia de gérberas aqui...
Se existisse eu não escreveria, não choraria, não murmuraria, eu nem espirraria tanto. Tenho certeza.
Eu riria, eu faria ginástica, eu compraria presentes, eu cozinharia, eu silenciaria com muito mais calma e com muito mais paz dentro de mim.
Se existisse Ana Carolina nem precisaria cantar tão alto:

Se há alguém no ar
Responda se eu chamar
Alguém gritou meu nome
Ou eu quis escutar

Vem eu sei que tá tão perto
E por que não me responde
Se também tuas esperas
Te levaram pra bem longe
É longe esse lugar

Vem nunca é tarde ou distante
Pra te contar os meus segredos
A vida solta num instante
Tenho coragem tenho medo sim
Que se danem os nós...



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Ana às 18:12 Comente!