"O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que lamentam, muito curto para os que festejam.
Mas, para os que amam, o tempo é eternidade...
(William Shakespeare)

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Terça-feira, Outubro 19, 2004


esse texto é repetido e é bem velho. vcs já devem ter visto essa história por aqui. coloco de novo, porque me lembrei dela. de como os sentimentos se repetem, e as histórias velhas são sempre as mesmas...

Ela se chamava Marina. Tinha cabelos longos e olhos brilhantes.
Se apaixonou por um rapaz chamado Alexandre. Achava engraçado dizer um "rapaz". Sua mãe que falava assim, e talvez por isso lhe soava coisa de velho. Mas seu romance com a Alexandre era assim mesmo, uma coisa meio as antigas, cheio de carinhos e surpresas.
Alexandre também era bonito. Muito mais bonito do que rapazes comuns, ele tinha um monte de cabelo liso, os olhos castanhos, uma pele morena e um sorriso claro e iluminado.
No começo Marina estranhou que ele tivesse interesse por ela. Mas, depois que acreditou, pensou que ele nem era tão bonito assim. E foram passando tempo juntos. Não muito tempo havia se passado desde o primeiro beijo quando Marina, por alguma razão, se encantou profundamente com tudo o que vinha dele. Encantava-se com o seu jeito de olhar, encantava-se com o sotaque interiorano que ele tinha, encantava-se com o silêncio que se estabelecia entre eles depois de todas as palavras terem sido ditas, encantava-se com a sorte de ter aquele homem ali, tão precioso ao seu lado. E foi bem aí, num desses momentos de encantamento que Marina pensou na possibilidade de viver sem Alexandre. Quando imaginou, tomou um susto: "Ai" disse para si mesma, sentindo uma pontada de temor dentro de si, "não quero", pensou em seguida, como criança que tem de ir ao médico. Abraçou-o forte e, sem soltá-lo, pediu que estivesse sempre por perto. Alexandre resmungou que sim, e ela achou pouco: "Fala direito Alê, fala que gosta mesmo de mim, poxa...". Ele falou.
Mas sem que ninguém notasse, ali pairou uma sombra. E Marina, que tinha pavor de ser deixada, começou a ser esquecida.
Ela não entendia porque, e tentava fingir que estava tudo bem. Porém sua insegurança era como que o suor, e saia por todos os seus poros, dia e noite. Alexandre foi se distanciando, se distanciando, como uma silhueta que vai ficando menor de acordo com a distância, e ele sumiu. Não para todo sempre que isso seria extra-terreno, mas sumiu da sua vida. Não respondia e-mails, telefonemas, e Marina achava que ele só tinha se esquecido de que ela era boa. Pensava: "Ah mas se ele me ver com aquela lingerie", ou então: ¿Ah mas se ele souber que eu li a trilogia inteira do Senhor dos Anéis que ele adora...", e assim foi fazendo planos, achando motivos que o fariam mudar de idéia.
Porque queria Alexandre por perto de novo. O amava sim, enquanto uma parte de si o odiava.
"Será possível, que ele não veja?" Marina acreditava que algumas coisas, deveriam cair sobre algumas pessoas, como raios.
Ah como desejou que caísse sobre ele, um raio com toda a realidade de que ela sabia. E quando ele abrisse o micro, de manhã, estivesse ali tudo o que ele não vê. Tudo que Marina sentia dentro dela...
Ela passava todo o tempo a procurar uma música, um texto, uma imagem. Qualquer coisa que acionasse o despertador interno daquele rapaz. E aí voltava a pensar que algo poderia cair no colo dele, logo pela manhã, e mudar tudo. Algo que fizesse com que ele voltasse a ser o que sempre foi. O que tem que ser, o que ela queria que fosse.
Porque não podia ser diferente, e aí que estava toda a questão: Marina sentia como se não tivesse dado o direito a Alexandre, de ser tão relapso com ela. Até poderia dar o direito de ele ser ocupado, problemático, estranho, covarde, indeciso, confuso, doente, o que quer que seja.

Mas não relapso, não. Isso não. E por isso ela não conseguia aceitar o fim. Porque não encontrava um trauma de infância, uma doença grave, uma religião que o impedisse de estar com ela. Nada, nada o impedia, a única razão aparente era ele não querer, e isso..."Ah isso não" pensava Marina.
Por muitos anos ela ainda acreditou que haveria de cair a tal bomba, que mudasse tudo, explodindo as dúvidas que tinha, essas mesmas que a matavam. Essas mínimas possibilidades de que ele tenha sim, a revelia desobedecido o que deveria ser uma ordem. E então, tenha apenas sido relapso. Nada além disso.
Nenhuma doença, nenhuma ocupação, nenhum problema em casa, nenhum trauma de infância, nenhuma razão.
Simplesmente relapso, como ele não poderia ter sido.
Mas esse dia nunca veio. Ela esqueceu dele. Esqueceu, mas morreu um pouco, de dor. Perdeu um pouco de si, enquanto buscava mentiras revestidas em papel bonito. Perdeu muito tempo evitando a verdade, porque a verdade pode nos ser tão insuportável, que não deveria existir as vezes.


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Ana às 20:48 Comente!



Domingo, Outubro 10, 2004


meu texto saiu na crônica do dia. uma inquitação por não ser uma lagartixa....

Dos bichos estranhos
09.outubro.2004

Faz muito, muito tempo. Eu estava na escola, era criança e, quando vimos o bicho, alguém falou: sabia que, se cortarem o rabo dele, ele fica andando sozinho e depois nasce de novo? Eu não respondi. Achei aquilo um absurdo tão grande que me senti subitamente agredida. Ele está querendo rir da minha cara, pensei. O menino insistiu: sabia, sabia?

Eu então, nerd como era, falei tímida: ¿Ah! É nada, vai... errrrrr...¿ Tentei zombar dele por sentir que ele estava fazendo o mesmo com aquela idéia estapafúrdia... Mas ele jurou e eu não quis mais brincar. Nem pensei mais naquilo ¿ que ridículo alguém inventar que o rabo do animal se moveria sozinho. Até que crescesse de novo, eu acreditaria, mais ficar balançando lá, sozinho, sem o resto do bicho? Ah! isso já era demais...

E daí vem à minha mente a lembrança de um outro dia. Talvez tenham se passado anos, talvez semanas, não sei... Mas eu vi ali, diante de mim, a lagartixa sem rabo, ainda andando e ¿ pasmem ¿ o rabo dela sozinho separado do corpo, se mexendo. Não sei como isso foi acontecer, nem sei quantos anos eu tinha, nem se alguém estava junto. Mas me lembro do choque que aquela cena me causou, lembro do meu corpo paralisado, por dias talvez, observando o rabo independente, a balançar sozinho, como se fosse um outro bicho, mas não era, era o rabo que trepidava no chão à revelia de quem deveria ser o seu dono...

Hoje sou uma mulher adulta e deixei essa história pra lá. Porém, um dia desses enquanto almoçava no trabalho o animal voltou a percorrer as paredes do meu pensamento. Estávamos à mesa, comendo qualquer coisa e falando dos bichos que surgem no verão. O assunto desandou um pouco até que alguém comentou: ¿Ah! Mas incrível mesmoé o rabo da lagartixa, vai...¿

Pronto. Minha amiga tão querida trouxe de volta a cena, o menino, a humilhação, a mentira, a verdade e o choque. E ela tinha razão. Ainda acho incrível isso. Como pode, gente, o rabo se debater sozinho? Ele sente? Ele tem vida? Não, né?

Mas e a lagartixa? Ela vai embora e deixa o rabo lá, já notaram? É por isso que ganhou minha admiração. Alguém corta o membro dela e ele fica andando sozinho. Ela nem tenta pegar o pedaço de volta, sai correndo fugidia, porque sabe que nascerá de novo, com o tempo, outro pedaço...

A analogia é óbvia, não? Meus pedaços, todos que foram amputados de mim, eu os recolho com cuidado e tento em vão colá-los novamente à minha pele. Tento ter o que a lagartixa, fria e mole, tem sem se esforçar: meus pedaços de novo...

Mas não funciona. Eu, humana complexa, assisto impotente meus pedaços irem embora, e não sei esperar que outro nasça de novo. Não sei fugir e largá-lo lá, à revelia. Se meu pedaço se mexesse então, eu voltaria correndo pra arrastá-lo comigo, um fardo, onde quer que eu fosse...

Não consigo ser como a lagartixa, mas queria. Talvez precise exercitar a frieza também. Talvez seja importante eu me tornar molengona. É, é isso. Vou parar a academia, e tirar os casacos. Vou deixar de me importar pra me tornar fria, vou deixar de pensar pra me tornar molenga.

Nada de ser um cavalo ou um pássaro como românticos. Quero ser uma lagartixa, nojenta, feia e inteira. Vou ter de novo meus pedaços, mesmo que eles me sejam arrancados. Vou ser inteira de novo, mesmo que me façam metade. Isso sim é que é inteligência...


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Ana às 00:13 Comente!



Domingo, Outubro 03, 2004


Eu não lido bem com domingos.
Não que não goste. Enquanto está claro, é meu dia predileto. Mas quando anoitece, passa a ser o pior dos dias...
Meu irmão faz as malas, eu o assisto, visto pijamas, e já foi embora o dia.
Sinto-me sozinha aos domingos.
O sábado não me é penoso. Normalmente fico em casa vendo filme, ou lendo, ou escrevendo. Compro um balde de M&M, escolho uma comédia qualquer, e está pronto meu ritual solitário, simples e tranqüilo. Pode parecer estranho, mas, juro, não dói essa solidão...
A de domingo já é diferente...
O tempo sempre está mais cinza, até no verão. As ruas estão mais vazias, a solidão deixa de ser uma escolha para se tornar uma imposição cruel. A cidade inóspita estampa os casais de forma sarcástica com os que não estão em dois...
Todo o problema é a imaginação. Eu, paradoxalmente, sonho com um mundo sem imaginação. Se não houvesse memória, e nem imaginação, não haveriam tantas dores dentro da gente.
Se o domingo fosse só um domingo como ele é, e não como poderia ser, tudo seria mais fácil. Se as cenas reais não tivessem cruelmente as cenas imaginárias para comparação, conseguiríamos lidar melhor com elas... Se um dia de trabalho fosse ele mesmo e não a impossibilidade de um dia de praia, trabalharíamos melhor...
Mas não. Deus quis nos provar. Nos deu a imaginação. Nos ensina a comer alface, mas enche nossos bolsos de chocolates. Finca nossos pés na terra, mas desamarra a mente pra que voe longe...
Por isso é duro ser gente. Por isso, como diz essa doce viajante, é melhor ser bicho.
Porque quando imaginamos decretamos guerra contra nós mesmos. Imaginamos e não nos permitimos, imaginamos e nos censuramos, voamos e nos derrubamos. O tempo todo, todos os dias, quando imaginamos as cenas perfeitas, nos matamos um pouco, nos agredimos um tanto, nos assumimos filhos ilegítimos desse universo tão maior do que nós...
As pessoas reais não têm sobre nós tanto poder. Nosso chefes de verdade, nossos namorados concretos, nossos pais de carne e osso, essa gente toda que anda e respira por aí, não nos pode matar como acreditamos...Eles são nada diante da força que tem nossa imaginação. O pai imaginado, o namorado sonhado, o chefe ideal...Esses mitos todos que criamos com a nossa própria força, ah esses sim é que tem poder... O nosso próprio poder, todo ele, é que pode nos matar....


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Ana às 19:13 Comente!