"O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que lamentam, muito curto para os que festejam.
Mas, para os que amam, o tempo é eternidade...
(William Shakespeare)

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Quinta-feira, Abril 14, 2005


Nossa...qto tempo.
Quanta coisa tem acontecido em tão curto espaço de tempo.
Sou outra.
Quem me vê aqui, não me reconhece mais.
Podem acreditar, sou outra.
Sou, agora, uma mulher de cabelos longos, que gosta de correr e do trabalho que faz.
Sou uma pessoa calma, uma funcionária exemplar, uma filha mais ou menos, uma amiga das piores. Sou uma compradora compulsiva, uma baladeira de primeira.
Tudo bem baladeira só. De primeira, ainda não.
Sou, talvez, quem eu sempre fui, mas de quem eu tinha me esquecido nos últimos anos. Volto a acreditar na vida, ainda não no amor, não como foi antes, não angelical e perfeito, mas, quem sabe, num amor imperfeito, cheio de coisas dessas que a gente jurava que não ia acontecer com a gente. Um amor baixinho, ou careca, ou falante demais, ou organizado demais, ou com aquela paradice indesejada de sempre, sei lá. Mas volto a acreditar que exista um amor calmo , sincero e quente, onde eu possa recostar a cabeça quando ela pesar. Acredito mas não anseio, acredito e, por isso, não me desespero, não me aperreio, não me faço mal. Quando ele vier - ele deve vir - eu saberei viver sozinha, eu saberei lidar com os meus medos, eu não precisarei dele pra me salvar, eu me sinto forte o suficiente para ser guardiã das minhas próprias expectativas.
Sou outra, hoje. Sou uma mulher com traços de egoísmo, antes inexistente. Não vou almoçar com quem não tenho vontade, nego convites que me desinteressem, sou mal-educada, às vezes, e ¿ o pior - meus ombros não pesam de culpa por isso.
Aliás o peso, hoje, vem do trabalho, das descobertas, sinto o peso da minha força e não mais das minhas fraquezas. sou mais leva, peso menos, me cobro menos, me canso mais. Ai desisti da vida perfeita, porque era pesado demais o fardo de tentar tê-la. Desisti de ser a mulher perfeita, a doce menina, a educada, a esperta, a frágil, a sensual, a linda a sem-maquiagem do século. Meu Deus ninguém é isso, que idéia!

Sou mais feliz feia. Onde já se viu isso? Sou mais feliz de óculos, com a pele pálida, sem batom.
Me desculpem, talvez eu seja mais chata, mas sou mais tranqüila. Me desculpem amigos, se não sou mais triste como era fácil ser. Me desculpem se não tenho mais relatos dramáticos, dores sem fim, textos chorosos. Peço desculpas porque me levantei do confortável sofá de vítima, onde eu estava afundada, e de onde tudo era simples e contagiosamente dolorido.
Hoje sou outra. Uma mulher que ri sem parar. Que canta alto no carro, como uma menina. Que dança sozinha em casa, feliz por haver uma casa vazia onde ninguém nos vê. Que xinga de vidros fechados, que diz não, inclusive quando quer mesmo dizer...
Não, não enxergo tudo com discernimento e sei que nunca o farei. Sempre haverá uma névoa, uma sombra, a fumaça preta de um resultado frustrado. Meus olhos cegam ainda, mas pela claridade e não mais pela escuridão.
Sou outra. Uso óculos escuros e mini-saia. Muito prazer.


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Sábado, Março 19, 2005


o rádio anda irônico...
onde estará meu amor?
será que vela como eu?
será que chama como eu?
será que pergunta por mim?


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tá uma noite tão bonita lá fora. e, de repente, me senti absurdamente sozinha. xcomo se os carros que passam, o porteiro, as luzes, aas músicas, tudo o que existe fosse fictício.
só há no mundo uma pesssoa. e está sou eu.


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Ana às 23:47 Comente!



Domingo, Março 13, 2005


Acho que estou abandonando esse blog. Nem tinha percebido, mas deveria saber.
Porque não faço outra coisa, a não ser abandonar tudo o que tenho.
Chegou a vez do blog. Ele foi um dos recordistas na minha vida. Normalmente, minhas construções duram uma semana.
Como patê de padaria, sabe? Como flor... Ah, minhas flores. Pois eu acordo cedo, vou ao Ceasa e trago as rosas mais lindas, as tulipas mais frescas, margaridas, gérberas de tantas cores e tipos. Trago tudo com cuidado, corto as flores, escolho os vasos... Algumas plantas até plantei eu mesma, em vasos maiores...Elas dão certo. Crescem, ficam bonitas. Eu as amo, minhas florzinhas. Por uma semana.
Uma semana no máximo e elas vão morrendo, secando, murchando. Algumas porque é a lei da natureza, muitas porque seguem ¿ pobrezinhas - a minha lei.
Eu abandono tudo, em uma semana, na melhor das hipóteses.
Os casos de amor, tem todos carimbo com data de validade. Costumam durar menos que as margaridas...
Eu queria ser constante. Juro que queria. Não tenho conseguido. Abandonei o gato que tive, coitado. Abandonei roupas na costureira, abandonei dezenas de livros na metade, abandonei todas as minhas amigas. Todas, sem nem uma explicação. Eu vou sumindo, desaparecendo devagar. Vou me tornando um vulto cada vez menor, até que elas se cansam. Com toda razão.
Abandonei a terapia. Quantas vezes? Todas também.
Só tem duas coisas que não abandono nessa vida: minha família, e meu emprego.
E não pense que me orgulho, não, pelo contrário. Talvez eles devessem ser abandonados, ambos, pela intensidade de amor que lhes dedico, são os responsáveis por toda minha loucura.
Claro que são. Deveria abandonar, ainda que temporariamente, a minha família e, menos temporariamente, meu emprego. Não sei se curaria os outros abandonos, receio que não.
Talvez tudo ficasse ainda pior, nada a me dedicar, nem um pai fofo e velhinho, nem a chatice apaixonante de minha mãe, nem o stress viciante daquele emprego...
Não sei se eu sobreviveria...Mas o fato é que às vezes me canso de sobreviver.
Queria viver, enfim. Alguém aí, me dê uma dica de um sonho que valha a pena ter?
Sei lá, pode ser qualquer coisa...Ser astronauta, cientista, ganhar o prêmio nobel.
Queria ser a menina de ouro que acredita sempre.
Queria querer muito alguma coisa. Qualquer sonho que se valha a pena, eu queria seguir. Menos as coisas difíceis, tipo casar, ter filhos e ainda por cima ser feliz...Esses não. Esses eu também já abandonei pelo caminho...


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Ana às 18:27 Comente!



Terça-feira, Fevereiro 08, 2005


Então acabou o carnaval.
Eu nem senti. Não joguei confetes nem serpentinas. Não vesti fantasia. Ou não vesti nada que já não faça todos os dias...
Fiz um monte de coisa em família. Vi meus tios velhinhos, os primos crianças... Levei meus sobrinhos pra patinar no gelo e ele queriam sair antes da meia-hora. Mas eu não queria. Brigamos.
Patinar no gelo é muito bom.
Eu comecei com aquele medo de todo mundo. Dei algumas voltas na pista segurando na barra. Não tinha tanta graça. Olhei as pessoas se arriscarem longe do apoio e ri com as que se estrepavam no chão molhado. Elas também riam. As vezes. Houveram as que choraram, as que ficaram sem jeito. Todas levantaram. Algumas desistiram. De qualquer forma elas tinham tentado.
De repente me dei conta de que o legal era tentar. Queria ficar com a calça molhada e desafiei as crianças: ¿Eei estou indo para o meio...¿. mas eu sentia medo. Sentia medo de cair e não levantar mais. Sentia medo de todo mundo rir. Sentia medo de doer meu bumbum, de dar mau-jeito na coluna. Sentia medo de cair, e voltava pra barra...
Passei a minha meia-hora assim. Querendo cair e temendo cair. Passei a minha vida assim..
Quero tentar, me afasto da barra, ouso o meio...me assusto, volto pra barra, fica sem ¿ graça.
Puxa vida, quanto tempo tenho até entender que não há nada demais em molhar minha calça? Cair não é tão grave assim, pensei num instante. Até os que desistiram e saíram da pista aos prantos, ganhavam a minha admiração. Só os covardes é que saiam de roupas secas. Só os covarde não dão mau-jeito na coluna.
Na vida afora, esses covardes não me inspiram, não me alimentam, não me animam.
Na vida afora, tenho sido um desses covardes.
Finjo que a barra é boa, que há alegria em dar voltas e voltas segurando em um apoio. Finjo que há patinação nesses impulso que meu braço faz.
Não há.
Minto, portanto, que sou feliz agarrada à segurança. Não sou.
Olho para o meio e, quando o assumo, invejo os outros patinadores. Invejo todos vocês, seres perfeitos, que soltam as mãos por alguns minutos. Quando olho para o meio, onde não há nada em que se segurar, onde as pessoas deslizam em seu próprio desequilíbrio, sinto o gelo da alegria rachar meu coração, e me viro novamente para firmeza daquela barra medíocre.
Antes eu fosse uma criança, que, enorme, consegue tentar, ainda que por uma deslizada só. Antes eu fosse uma gordona, que sai na viedo-cassetada, porque achou que ia dar certo.
Antes a força que ora acerta, do que a covardia sempre errante.
Quero soltar as mãos, ainda vou conseguir.
Há de ser logo porque a patinação vai até esse final de semana, já está acabando. A vida também, não demora a passar, enquanto eu me seguro nas bordas do tempo...


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Domingo, Fevereiro 06, 2005


Fui na blockbuster.
Hoje é sábado, de carnaval. Eu moro em são Paulo.
Pois bem. Não há ninguém na cidade. As ruas estão vazias. os shoppings estão vazios, os apartamentos estão apagados, vazios. Na Blockbuster, três pessoas, contando comigo. Eu ando pela loja e noto rapidamente: nào tem filmes. Estão todos fora.
Me dirigi ao caixa e falei com o moço, que me reconhece das sextas a noite:
- Oi, tudo bem?
- Tudo e vc? Escolhendo filmes por carnaval? Temos uma promoção e...
- Me diz umas coisa, moço, hoje é carnaval mesmo né?
- É sim.
- A cidade está tão vazia..
- Está.
- Na minha garagem, tem só 6 carros, contando com o meu. Na manicure hora a vontade. Na rua, olhe só, ninguém...
- Sei.
- Então, por favor, QUEM PEGA OS FILMES?
Ele riu: tem muita gente na cidade...
- Moço vc acabou de concordar que não tem ninguém, não é possível isso. Está vazia, olha só...não tem ninguém., meu irmão ta viajando, meus primos, minhas amigas, todas elas, todas. Conheço pessoas que estão em todas as cidades do país, menos em São Paulo. Aqui só tem eu e vc, moço e, estranhamente, não tem filmes aqui, está tudo fora!! É um complô?! É? Me diz, me explica? São os amigos que, antes de ir pra praia, passam aqui e fazem a rapa pra sacanear os nerds? É isso? Uma conspiração?
- Não é não...vamos ver, que filme vc queria?
Eu estava brava, era pra ser uma brincadeira e eu estava séria, vê se pode...
Pedi desculpas, ri também, comprei um balde de sorvete, um pote de M&Ms e vou assistir ao desfile. Se estiver passando né?
A conspiração pode ser grande...
Feliz feriado pra vcs. Aproveitem como puderem. Aos foliões, que façam suas folias. Aos calmos, que usufruam da paz.
À todos, por favor, que não peguem todos os filmes da locadora...


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Quarta-feira, Janeiro 26, 2005


Príncipes: os verdadeiros vilões
22.janeiro.2005

Há perguntas que permeiam a humanidade desde sempre. E, embora saibamos que não há resposta exata, insistimos: ¿Porque amamos alguém? Porque nos apaixonamos e acreditamos e nos entregamos até?¿

Arrisco um palpite: Porque vemos que aquela pessoa nos oferece o que precisamos. E porque sofremos? Eu tenho certeza que é porque descobrimos que ela não nos oferece nada do que precisávamos.

Eu sempre escolho homens que me parecem fortes e protetores. E sempre sofro por me sentir fraca e desprotegida com eles. Eu tenho escolhido errado.

Acredito que porque eles falam alto, são musculosos e me carregam no colo, eles são fortes o suficiente pra me proteger de qualquer perigo. Mas está tudo errado. Essa teoria de uma frasesinha só, já tem dois erros gigantes. O primeiro é que eles serem musculosos e falarem alto e me carregarem no colo, só significa, na realidade, que eles podem me derrubar de uma altura considerável - e é o que tem acontecido.

E em segundo lugar que eu não estou presa numa torre, cercada por dragões que cospem fogo, para ter de ser protegida de qualquer perigo. O perigo ­ como eu não vi?! ­ eram os heróis...

Eu achava que eles iam me salvar, me proteger, como um príncipe fazia nos contos de fada, mas, olhando bem, eles eram os que cuspiam fogo pelo nariz. O salvamento, a proteção, o cuidado, esse vinha de outro lado. Dos amigos, da família, do trabalho, de mim mesma.

Puxa vida! Decididamente, está tudo errado... O herói é um perigo, o mocinho é bandido, a torre foi erguida por quem, afinal? E que idéia idiota de torre é essa, meu Deus?!?!

Eu, se tivesse presa numa torre só pra mim, com uma vista dessas, conforto, calorzinho, ia querer sair de lá porque?! No máximo eu pedia pro príncipe me levar uns livros, uns filmes, um micro e pronto. Depois tratava de deixar o dragão acabar com ele que não ia mais me servir de nada...

Tá bom, essa parte é mentira.

Mas que os contos de fada não tem pé nem cabeça, isso é verdade. A gente cai porque é criança. Acreditamos até em papai-noel e em coelho da páscoa, oras... Mas eles... eles não nos infernizam tanto quanto os príncipes.

No fundo não sei se conseguimos nos livrar dessas bobagens. De alguma forma, a cada nova escolha, estamos mais uma vez nos mirando na Cinderela, Bela, Branca de Neve, ou qualquer uma delas.

Mesmo as descrentes, as independentes, as fortes. Mesmo a Cicarelli, a Galisteu ou a Hebe. Todas elas querem ser gostadas. Todas elas, por mais que estejam distantes do romantismo, compram vestidos esvoaçantes. Ou tomam um banho longo. As mais bem-resolvidas devem se sentir sozinhas vez ou outra e suspiram com cenas de amor.

Ninguém escapa. Algumas sobrevivem. Enfrentam, se tornam maduras, fazem as renúncias necessárias e se erguem. Eu acredito nisso: em um tempo de paz, que talvez inclua um pouco de resignação e cansaço (será?). Mas que te permita desligar a tv e tomar a pílula do mundo real. Apesar de tudo ele também deve valer a pena...


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Domingo, Janeiro 23, 2005


Acho que não sou mais mulher. É uma revelação chocante, eu sei. Mas está me acontecendo.
Fui na ginecologista esses dias. Porque não mênstruo mais. Mil exames, chatíssimos, papéis, convênios, laboratórios e hospitais, o veredicto: ¿você não está ovulando.¿
Ela falou, como se fosse uma sentença de morte. E falou, falou, falou, mas acho que era em Árabe. No final me receitou anticoncepcional. ¿Mas eu não faço nada. Já tenho minha proteção natural...¿ Retruquei.
¿Anticoncepcional, não é só para prevenir gravidez. Você vai menstruar artificialmente.¿ Ela falou em português daí...
Peguei a amostra, me despedi, desejei boa tarde, e fui embora. Eu me sentia sozinha. Eu estava sozinha. Cinco minutos depois, enquanto dirigia, eu chorava no telefone com uma amiga que ligou na horinha certa...
Aos prantos, eu tentava entender o que acontecia:
- Eu não sou mais mulher...
- Claro que é, deixe de bobagens...
- Eu tenho que menstruar artificialmente...
- Ótimo, pílulas ajudam em muita coisa...
- Eu não faço nada com ninguém, porque preciso tomar isso? Sou sozinha, tão sozinha, tão absolutamente sozinha, que nem beijo dou...Porque tenho que tomar isso?
- Vai ser bom pra vc, se acalme...
- Eu não sou mais mulher...
- Você é. Sinto muito...
- Sabe o que mais ela disse? Que o próximo sintoma dos cistos é ter mais pêlos! Tá vendo? Estou me transformando num homem...
- Vai te nascer um pinto?
- Ai, não!
- Então? Você é uma mulher...
- Eu não consigo usar saltos, eu não sei me maquiar, eu não me apaixono, eu não mênstruo, eu troquei Sex and the City por 24 horas, e eu vou ter barba!! Ai sou um homem feito!

Ela riu... as amigas sabem quando estamos só malucas. Nós não sabemos.
Só percebemos depois.
Mil pessoas tem essa doença. Uma em cada cinco mulheres, mais precisamente.
Mas eu me sinto preocupada ter de tomar pílulas que me fizeram mal quando eu costumava precisar delas.
Me sinto pouco mulher quando me sinto tão solitária. Talvez eu esteja perdendo algumas habilidades. A de menstruar, a de me empolgar, a de me apaixonar... Não consigo ficar com alguém por mais de 5 minutos. Não consigo. Isso é coisa de homem.
Mas me sinto exausta, cansada de tentar e errar, e ter sempre as mãos vazias... Isso não é coisa de homem...
E eu me assustei ao sair daquele consultório. Me senti frágil e insegura por uma bobagem, isso tudo, é típico de mulher né?
Que bom. Há uma luz no fim do túnel...


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Domingo, Janeiro 16, 2005


post repetido....sentimentos repetidos...
devo ter gasto todos. recebo uma cota dos antigos, reciclados...
recebam vcs tbém:
Houve um tempo em que eu pensava que o amor era um bolo pronto, quente, com recheio de chocolate, qualquer coisa deliciosa e simples que encontramos sobre o café da manhã de um sábado de sol.
Eu pensava que encontraria o meu amor assim, pronto, lindo cheiroso, com um luminoso na testa piscando: ¿alma gêmea, alma gêmea, alma gêmea¿. Daríamos as mãos e sairíamos andando juntos, como ficaríamos até o envelhecer.
Eu não contava com dúvidas, medos, questionamentos, muito menos com a -hoje provável -possibilidade de mudar de idéia. Para mim o amor viria pronto para saborear, em caixinha, falaria conforme o script e não deixaria sequer um rastro de confusão ou tristeza na minha cabeça tola.
Antes, não havia a construção do amor. Havia o amor.
Mas eu me enganei.
O amor, se existir, não vem pronto. Se for um bolo de chocolate há de vir os ovos, a farinha o fermento. Com sorte virá uma receita por escrito. Normalmente não...
Ainda assim há de ter paciência para ver o bolo dourar, crescer, assar.
Há de ter sensibilidade para que não passe da hora, atenção para não deixá-lo queimar. E depois disso tudo, esperar esfriar, e ter um pouco de fome para saborear.
O amor, se existir, pode levar anos para estar pronto, uma vida inteira para, talvez, no final, percebermos que não assou, que estragou, que desmanchou no forno. Era pra ser amor, mas queimou, diremos cabisbaixos. Ou então, jovens demais, olharemos ofegantes: Era pra ser amor, mas está cru.
Talvez algumas vezes pareça que está pronto, o bolo. Apetitoso, cheiroso... Porém ao experimentar diremos: Ihh tá com gosto de farinha, mas era pra ser amor.
Ou então acontece de o bolo sair bom, tiramos uma garfada e vibramos satisfeitos: Achei!- Mas daí, quando vamos desenfornar, o bolo desmancha. Você fica lá, tentado juntar, ajeitar, mas o que era pra ser amor, está em pedaços....
Ah talvez por isso percamos a fome, nos cansamos e nos contentamos com qualquer coisa mais ou menos, sem recheio, sem gosto, sem açúcar... Eu, tenho escutado o padeiro dizer: Amor não tem mais não. Se quiser, leva esse aqui...
E lá vou eu carregando a sacolinha do bolo pulmman. Meio velho, frio, sem gosto. É só pra não morrer de fome mesmo...


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Domingo, Janeiro 09, 2005


Fui a um casamento ontem.
É incrível como sempre me comovo.
É tudo absolutamente igual.
O vestido branco, o buquê, os abraços, as músicas, o tapete vermelho...Tudo sempre igual, de novo. Mas, alguma coisa nessa mesmice toda, me faz achar que é diferente...Alguma coisa que me faz chorar....
Ficava me perguntando o que fazia com que eu me emocionasse tanto.
Seria a música? Seriam os convidados? E se fosse uma vassoura vestida de branco ali, eu iria chorar daquela forma? Ou se não houvesse som e ela entrasse no silêncio, iria eu me sentir tão tocada com a cena?
Não sei...Talvez seja mesmo o conjunto.
Talvez seja o sentimento que aquela moça, vestida de pura, nos inspira quando a contemplamos na sua beleza radiante...
As noivas são sempre radiantes. Estão sempre com um brilho que invoca a alegria do amor, a alegria da conquista, aquela mesma da Bela, da Cinderela, da Rapunzel...
Ontem, no entardecer, eu admirava aquela menina. Não sabia tanto dela, mas admirava a força que ela teve pra chegar até ali. Admirava a ingenuidade dela, pra tentar aquilo tudo, como se fosse ser bom. Admirava como admiro os bebês que nascem e dormem tranqüilos sem saber o que os espera.
Será que ela sabe? Será que ela imagina o quanto vai chorar e sofrer, e doer?
Se souber, a admiro mais ainda. Admiro a disposição que ela tem pra se entregar a um homem e ir viver com ele. Admiro a coragem que ela tem pra tentar formar uma família diante de tantas estatísticas negativas. Ela acredita que estará naquele percentual que se salva. Incrível né? Ela acredita que vai ser diferente...
Admiro a força e a ingenuidade daquela linda moça que nos fez chorar tanto...
É preciso tanta força pra não desistir... É preciso tanta ingenuidade pra acreditar...
Lembrei da minha mãe. Lembrei dos meus tios que eu tinha visitado ainda naquela manhã. Eles têm mais de 50 anos de casados. Ela conta que pensou em desistir quando soube que ele tinha 18 anos e não 21 como havia dito antes. E ela só descobriu a mentira porque era época da guerra e ele temia ser chamado. ¿Porque você está preocupado, seu tempo já passou¿.Ela lhe disse doce e ingênua como devia ser. E ele lhe contou apavorado: ¿Não passou... Eu nasci há 18 anos...¿ Ela se assustou. Era mais nova que ele, quase dois anos. Como podia ser, o que iam fazer?
Mas aí já haviam se passado 5 anos de namoro e acabaram ficando juntos... ¿Porque tia?¿ Eu perguntei romântica... ¿Ah porque aí já tava junto né? Não tem como desmanchar...¿
Não era romantismo e nem amor. Era comodismo mesmo. E não tem problema. Ela sem vangloria de ter mantido o relacionamento porque ele foi bom pra ela. Foram felizes juntos. São felizes ainda hoje, mesmo que ele não escute bem. Ele traz os remédios dela, ela faz o almoço dele. Ele teve câncer ela enfartou. Eles se ajudaram, se salvaram, se reergueram...
Ela não se arrepende. Nem por um instante. Ele não diz nada, mas a olha com amor e nota qualquer riso novo, qualquer olhar diferente...
Eles andam de mãos dadas, comentam do tempo, dos filhos, dos netos, da comida, da novela, riem das próprias confusões, debocham dos próprios erros, elogiam-se mutuamente, por tantos acertos.... Eles se divertem juntos.
Ontem, naquele casamento, enquanto o padre falava, rezei para que aquele casal tivesse a sorte dos meus tios. Que eles tomassem as decisões certas, que eles não largassem um da mão do outro, quando precisassem mais. Como um bebê, fui ingênua a ponto de pedir amor eterno aos meus amigos. Carinho eterno, sei lá que nome tem. Que eles se cuidassem, se olhassem sempre com aquela ternura que tinham ali. Que conseguissem se achar, se encantar se segurar.
É, não seria fácil, eu pensei quando lembrei dos meus tios. Mas seria bom, pensei em seguida, com as mesmas lembranças...


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Segunda-feira, Dezembro 20, 2004


Será possível viver um relacionamento puro?
Será que vocês conhecem, ou já ouviram boatos de alguém que viveu um relacionamento puro?
Puro é viver sem mentiras, sem máscaras, sem joguinhos. Puro é poder dizer o que pensa sem medo, e fazer a cara que quiser, e se vestir como bem entender.
Eu sempre quis viver um relacionamento assim, e, só agora, percebo que talvez seja impossível.
Numa relação não se pode dizer tudo. Será que não podemos ser nós mesmos pra sempre? E talvez nem mesmo por uns dias?
Tenho ouvido dizer que não. Que a mulher precisa ser forte, porque nós somos as maiores responsáveis: ¿Se a mulher souber levar, ela ganha o rapaz direitinho¿ é o que dizem as mais velhas. Pode parecer bom, porém temo que custe caro demais. Pra mim é um preço tão alto ter de ser sempre forte, ter de fingir e forjar por um segundo sequer. E talvez seja por isso que nunca dá certo. Sou honesta ao extremo, sou inteira e, quando acredito, lá se vão as máscaras, fico sem maquiagens, nua e inteira diante do outro.
Ah não pode...
Será?
Vocês aí, será que alguém conhece algum relacionamento onde podemos nos apresentar ao outro de forma verdadeira? ¿Ei, essa sou eu¿ diria. ¿Sou chata e ciumenta, e tenho rinite. Sou alérgica a tudo, menstruo muitos litros de sangue por mês, não gosto dos animais e tenho medo de ficar sozinha pra sempre¿ Será possível? Não no primeiro dia, talvez nem no primeiro ano. Mas que um dia, quando acontecer, não precisemos esconder. As pessoas ficam juntas por anos, décadas, deveriam poder se mostrar. Elas sentem ciúmes, inseguranças, dores de barriga... Porque não podem dizer???
¿Estou com medo. Estou com medo de te perder, porque a Joana parece que gosta de você e meu coração se aperta de pavor quando penso que talvez ela seja melhor do que eu...¿ Puxa, não podemos dizer isso sem que o outro se sinta poderoso demais né? Será que podemos ser frágeis sem que a fragilidade nos torne fracos?
Minhas mãe diz que não. Muitos dizem que não. Nascemos só e morremos só. Fazemos cocô e xixi sozinhos, não há como ser possível dividir-se sempre, com alguém....
Há algo que deve ser preservado, escondido, ainda que doa. Porque dói um tanto. Engolir seco, sorrir amarelo, estufar o peito, sair andando. Quando queremos nos encolher e chorar, gritar e agarrarmos forte.
Dói, sermos outra, quando queríamos ser nós mesmas. Dói o peso das máscaras, quando o rosto já está cansado.
Dói os aromas artificiais, como as gelatinas coloridas, como o gosto ruim dos chicletes azuis.
Eu não queria um relacionamento com sabor de chiclete azul....eu não queria fandangos...
Mas talvez, talvez se não aceitar esses alimentos, é possível que a fome nunca me seja saciada, e eu venha a morrer de tédio, de fome, de verdades.


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Segunda-feira, Novembro 29, 2004


Desde os 12 anos tento aprender a lidar com o que há de mais difícil no mundo: a perda.
Digo desde os 12, mas talvez tenha sido desde os 13, ou mesmo desde os 15, não sei.
O fato é que faz tempo já. Faz tempo que perco coisas e não sei lidar com elas...
Sempre perdi nos esportes, por isso não os praticava. Minhas maiores faltas sempre foram nas temidas aulas de educação física. Também estou muito acostumada a perder coisas, por isso não me apego a elas. Nada do que é material me importa. Perco fivelas, brincos, roubaram meu carro e a perda não me fez derramar uma lágrima sequer. Tomei um susto, fiquei chocada, mas liguei pro seguro, fiz o b.o e pronto.
Meu radio, levaram duas vezes. Só da segunda chorei. E não foi pelo rádio, foi porque o carro estava na frente da minha casa, e eu confiava nesse lugar. A possibilidade de perder a confiança nas pessoas, essa sim, é doída.
Preciso aprender a lidar com a perda, porque a vida é feita de muitas delas. Se eu não aprender, vou precisar morrer muito cedo, já que envelhecer, só é possível aos que conseguem conceber a idéia de perdas. Ganhos também, mas perdas, principalmente.
Assisto meus pais perderem todos os dias. Morro um pouco, cada vez que minha mãe conta uma história pela segunda vez. Tem acontecido muito ultimamente. Meu coração se destrói a cada pequena demonstração cotidiana da perda que eles vivem. Servir o refrigerante de dois litros se tornou pesado, amarrar um tênis leva muito tempo, entrar em um assunto já não é mais tão simples... Eles perdem coisas, todos os dias, a cada minuto.
E eu, aqui no meu cantinho, não consigo lidar com perdas que deveriam ser infinitamente mais ridículas.
Eu posso não querer estar com determinada pessoa, não achá-la mais atraente, interessante, divertida. Saber que foi uma história inventada da minha cabeça fantasiosa, que ele real é um gorducho, machista, emburrado... Eu posso ter toda a consciência do mundo, e ainda assim sentir uma dor desgraçada me rasgando o peito cada vez que me vejo perdendo o babaca.
Talvez porque a perda esteja tão debaixo do meu nariz. Toda vez que pego um papel na impressora, toda vez que preciso de um xerox, ou toda vez que vou ao banheiro, lá está ela. Me olhando com ares de vitória, me esnobando o cabelo liso e comprido, me esfregando na cara a felicidade que eu conheci, e assim ela me mostra as minhas misérias, as minhas faltas, as minhas mesquinharias, a minha inveja, os erros que me fizeram perder. Ainda que ele seja um idiota. Cada vez que eu os vejo trocar um olhar, cada vez que percebo o sorriso engolido nos lábios sérios, cada vez que noto uma palavra de afeto, um e-mail carinhoso, a voz baixa no telefone, os cuidados que me fizeram viver, morro um pouco.
Porque é tão difícil perder? Porque se não me importo? Porque quero morrer por não tê-lo se não quero tê-lo? Porque, se ele está tão gordo que tem dobrinhas na nuca? Porque se ele nem é legal e nunca compartilhou dos meus sonhos, das minhas dores, dos meus medos? Porque se ele nunca entendeu nada mesmo? Porque dói a perda de algo que, na realidade, não me faz falta?
Porque me sinto mutilada, se o que levaram, era peso?
E porque diabos eles são tão felizes? Porque ela consegue mantê-lo por perto?
Porque sinto tantas saudades? Porque as dobrinhas na nuca não fazem diferença se são tantas afinal?


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Quarta-feira, Novembro 24, 2004


Então¿
Eu tenho regredido. Voltado à infância, à adolescência, buscado recolher cacos de mim que ficaram espalhados pelo tempo.
Coincidência ou não, me vi em uma loja de brinquedos dia desses. Queria achar um jogo da minha infância... Chamava-se Cara a cara.
Eu passei dias tentando lembrar dos nomes das pessoas do tabuleiro, e fui até uma loja pedir ajuda. Acabei por comprar o jogo, meio envergonhada, por ser adulta e não me reconhecer grande...
O jogo está diferente do que mora na minha memória. Eu quis achar o antigo. Investigando com os amigos, acabamos falando dos armários de criança, dos quartos de bagunça onde mantemos espremidos os brinquedos que gostávamos mais. Todo mundo tinha o tal quartinho.
Você também tem? Um quarto de bagunça, um lugar meio escuro, empoeirado onde guarda coisas que nem lembrava mais e que lhe foram tão caras?
Tenho remexido nos meus...
Aliás, nem sabia que tinha tanta coisa entulhada dentro de mim. Nem sabia que poderia machucar tanto.
Tantos assuntos que eu achei que estavam mortos. E que não machucariam mais, que não trariam lágrimas. Mas foi como se eu abrisse o quarto escuro e começasse a espirrar. Foi como se eu vivesse de novo aquele tempo que não deveria voltar.
E quis resgatar um sentimento que não mais existe. Tive vontade de gritar: ¿Ei eu senti amor, eu senti alegria, cadê, cadê, tragam de volta, roubaram tudo, tragam, tragam, o passado está aqui, tragam o que me era de direito nessa cena!!¿ mas não trariam....
Mais uma prova de que o sentimento não está nas coisas, mas em nós. Ela disse isso uma vez.
O que dói não é a perda da pessoa. É do que ela nos capacitava a sentir. A pessoa, em si, não faz nada. Não é grande. Nós é quem somos, nossa capacidade de criarmos sensações tão doces, tão ternas, tão frágeis, talvez por serem tão belas...
Deveríamos, ao invés de chorar o passado, nos orgulharmos dele. De nós mesmas que somos tão cheias de beleza no nosso sentimento. Se alguém renegou o que você tinha de mais precioso, não importa. Você ainda tem. A preciosidade é tua, mora aí, e sempre devíamos deixá-la crescer. Nós é que cortamos os fios que nos faz bombear o coração.
Mas nào. Nós fechamos nosso quarto escuros, junto com o brilho que ele nos dera. Nós nos matamos, tornamos a vida opaca, porque quanto menos tinta, menos escorregamos.
Criamos muros, erguemos grandes paredes contra a doçura, porque ¿ai ¿a doçura nos mata quando falta....
Só as crianças que acreditam mesmo. De forma inabalável, elas acreditam. Na vida, na família, em nós, adultos tolos que não acreditamos nelas e nem em ninguém.
As crianças são sempre heróis.
Não consegui achar o Cara a cara antigo. Não existe mais...


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Terça-feira, Novembro 02, 2004


Fui assistir a um romancinho.
Sempre juro que nunca mais vou.
Porque passo semanas me esforçando pra ser dura, pra ser firme, fria, rude até...Passo séculos me esforçando pra ser uma descrente do amor, porque as coisas se tornariam muito mais fáceis, até que vou assistir ¿Wimbledon ¿ O jogo do amor¿...
Saí de lá jurando não ver mais esses filmes. Porque saí de lá na dúvida... Será? Será que pode existir? Ele não precisa ser um jogador de tênis. Ele não precisa ser o número 1.
Não... Eu nunca quis um mega star, eu nunca quis os grandes vencedores...
Eu e os velhos sonhos pequenos. Quero ter o que comemorar, além das coisas antigas... Quero ter porque me levantar afinal, todos os dias...Quero ter vontade de comprar roupa nova, quero um olhar de encantamento, um suspiro, uma respiração suspensa, uma cena de filme... É eu quero a cena de filme.
Mas é só porque eu tô na TPM....
Antigamente, me diziam que eu era sonhadora demais. Boba, cabeça nas nuvens, enfim... Hoje, quando eu digo que não acredito me julgam dura: ¿Não seja assim tão descrente¿ minhas amigas dizem ainda com o brilho de adolescente nos olhos... Mas não existe! Eu respondo aos berros sem dizer nada... Não existe...
Se existisse já teria vindo aqui, me dar um oi. Se existisse teria tocado a campainha naquela noite de frio, se existisse teria pregado esse maldito quadro que eu não consigo pregar sozinha...
Se existisse teria me feito um chá aquela noite que eu morria de gripe. Se existisse eu não teria que ter parado aquele filme, porque estava muito assustador pra uma medrosa solitária. Se existisse eu não seria solitária. Talvez nem medrosa... Se existisse ligaria à noite, e teria passado pelo menos um domingo comigo. Pelo menos um, unzinho só.... Se existisse teria mandado flores, não, não muitas, nem caras... Se existisse teria meia-dúzia de gérberas aqui...
Se existisse eu não escreveria, não choraria, não murmuraria, eu nem espirraria tanto. Tenho certeza.
Eu riria, eu faria ginástica, eu compraria presentes, eu cozinharia, eu silenciaria com muito mais calma e com muito mais paz dentro de mim.
Se existisse Ana Carolina nem precisaria cantar tão alto:

Se há alguém no ar
Responda se eu chamar
Alguém gritou meu nome
Ou eu quis escutar

Vem eu sei que tá tão perto
E por que não me responde
Se também tuas esperas
Te levaram pra bem longe
É longe esse lugar

Vem nunca é tarde ou distante
Pra te contar os meus segredos
A vida solta num instante
Tenho coragem tenho medo sim
Que se danem os nós...



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Terça-feira, Outubro 19, 2004


esse texto é repetido e é bem velho. vcs já devem ter visto essa história por aqui. coloco de novo, porque me lembrei dela. de como os sentimentos se repetem, e as histórias velhas são sempre as mesmas...

Ela se chamava Marina. Tinha cabelos longos e olhos brilhantes.
Se apaixonou por um rapaz chamado Alexandre. Achava engraçado dizer um "rapaz". Sua mãe que falava assim, e talvez por isso lhe soava coisa de velho. Mas seu romance com a Alexandre era assim mesmo, uma coisa meio as antigas, cheio de carinhos e surpresas.
Alexandre também era bonito. Muito mais bonito do que rapazes comuns, ele tinha um monte de cabelo liso, os olhos castanhos, uma pele morena e um sorriso claro e iluminado.
No começo Marina estranhou que ele tivesse interesse por ela. Mas, depois que acreditou, pensou que ele nem era tão bonito assim. E foram passando tempo juntos. Não muito tempo havia se passado desde o primeiro beijo quando Marina, por alguma razão, se encantou profundamente com tudo o que vinha dele. Encantava-se com o seu jeito de olhar, encantava-se com o sotaque interiorano que ele tinha, encantava-se com o silêncio que se estabelecia entre eles depois de todas as palavras terem sido ditas, encantava-se com a sorte de ter aquele homem ali, tão precioso ao seu lado. E foi bem aí, num desses momentos de encantamento que Marina pensou na possibilidade de viver sem Alexandre. Quando imaginou, tomou um susto: "Ai" disse para si mesma, sentindo uma pontada de temor dentro de si, "não quero", pensou em seguida, como criança que tem de ir ao médico. Abraçou-o forte e, sem soltá-lo, pediu que estivesse sempre por perto. Alexandre resmungou que sim, e ela achou pouco: "Fala direito Alê, fala que gosta mesmo de mim, poxa...". Ele falou.
Mas sem que ninguém notasse, ali pairou uma sombra. E Marina, que tinha pavor de ser deixada, começou a ser esquecida.
Ela não entendia porque, e tentava fingir que estava tudo bem. Porém sua insegurança era como que o suor, e saia por todos os seus poros, dia e noite. Alexandre foi se distanciando, se distanciando, como uma silhueta que vai ficando menor de acordo com a distância, e ele sumiu. Não para todo sempre que isso seria extra-terreno, mas sumiu da sua vida. Não respondia e-mails, telefonemas, e Marina achava que ele só tinha se esquecido de que ela era boa. Pensava: "Ah mas se ele me ver com aquela lingerie", ou então: ¿Ah mas se ele souber que eu li a trilogia inteira do Senhor dos Anéis que ele adora...", e assim foi fazendo planos, achando motivos que o fariam mudar de idéia.
Porque queria Alexandre por perto de novo. O amava sim, enquanto uma parte de si o odiava.
"Será possível, que ele não veja?" Marina acreditava que algumas coisas, deveriam cair sobre algumas pessoas, como raios.
Ah como desejou que caísse sobre ele, um raio com toda a realidade de que ela sabia. E quando ele abrisse o micro, de manhã, estivesse ali tudo o que ele não vê. Tudo que Marina sentia dentro dela...
Ela passava todo o tempo a procurar uma música, um texto, uma imagem. Qualquer coisa que acionasse o despertador interno daquele rapaz. E aí voltava a pensar que algo poderia cair no colo dele, logo pela manhã, e mudar tudo. Algo que fizesse com que ele voltasse a ser o que sempre foi. O que tem que ser, o que ela queria que fosse.
Porque não podia ser diferente, e aí que estava toda a questão: Marina sentia como se não tivesse dado o direito a Alexandre, de ser tão relapso com ela. Até poderia dar o direito de ele ser ocupado, problemático, estranho, covarde, indeciso, confuso, doente, o que quer que seja.

Mas não relapso, não. Isso não. E por isso ela não conseguia aceitar o fim. Porque não encontrava um trauma de infância, uma doença grave, uma religião que o impedisse de estar com ela. Nada, nada o impedia, a única razão aparente era ele não querer, e isso..."Ah isso não" pensava Marina.
Por muitos anos ela ainda acreditou que haveria de cair a tal bomba, que mudasse tudo, explodindo as dúvidas que tinha, essas mesmas que a matavam. Essas mínimas possibilidades de que ele tenha sim, a revelia desobedecido o que deveria ser uma ordem. E então, tenha apenas sido relapso. Nada além disso.
Nenhuma doença, nenhuma ocupação, nenhum problema em casa, nenhum trauma de infância, nenhuma razão.
Simplesmente relapso, como ele não poderia ter sido.
Mas esse dia nunca veio. Ela esqueceu dele. Esqueceu, mas morreu um pouco, de dor. Perdeu um pouco de si, enquanto buscava mentiras revestidas em papel bonito. Perdeu muito tempo evitando a verdade, porque a verdade pode nos ser tão insuportável, que não deveria existir as vezes.


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